Renato Torres

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Renato Torres

Renato Torres

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Ultimo Login: 28/02/12

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Sobre

Renato Torres (Belém-Pa. 02/05/1972) - Cantor, compositor, instrumentista, arranjador e diretor musical. Já trabalhou com artistas como Vital Lima (parceria na faixa "Lotus" no CD "Das coisas simples da vida"), Felipe Cordeiro (parceria e interpretação da faixa "Cicatriz" no CD "Banquete"), Lu Guedes (CD "Estrela D`Água"), Arthur Nogueira (CD "Mundano" e "Mundano +"), Henry Burnett (CDs "Não Para Magoar" e "Retoque"), Iva Rothe (CDs "Aluguel de Flores" e "Aparecida"), Joelma Klaudia (CD "Dias Assim"), Juliana Sinimbú (CD "Sonho Bom de Fevereiro"), entre outros.

Compõe a banda Clepsidra , junto a Maurício Panzera e Arthur Kunz , com dois CDs lançados: "Bem Musical" (Ná Records, 2004) e "Tempo Líquido" (Ná Records, 2006). Tem textos publicados na coletânea "Versos Caninos" (CAL- UFPa.), e na Revista Literária Polichinelo. Publica poemas no blog  A Página Branca , e no site Overmundo .

 

Fotos do perfil: Ana Flor

 

 

O querido maldito

 

Não há quem não o distinga na ativa noite belenense. Renato Torres é um nome conhecido e reconhecido por músicos e pelo público, e diga-se desde já que esse reconhecimento e empatia se nutre de aparições que nada guardam de uniformidade e repetição, como costuma ser o caso de parte do que se ouve nas noites dos bares. Escrever sobre ele é tarefa inglória, porque não tenho o distanciamento necessário; a sonoridade do meu trabalho era uma antes de conhecê-lo e outra depois. Não posso, por isso, mais que um pequeno esforço no sentido de expressar o que todos sabem: que se trata de um artista múltiplo e de expressão variada.

 

Foi nos idos de 1997, numa tarde quente na Cidade Nova, que peguei no violão para mostrar ao Renato e ao Rubão as músicas que eu gostaria de ver arranjadas pelo PaiUbú, banda que contava ainda com Ulisses Moreira na bateria. Pela troca de olhares entre eles, imaginava, música por música, que estava agradando e que os dois já estavam pensando em como soariam as composições com a banda. Pouco tempo depois fizemos um show juntos que em nada lembrava o lançamento do meu primeiro – e precipitado – disco, lançado em 1996. Minha relação adolescente com o rock e a música pop e o pouco que dessa audição juvenil chegou ao meu trabalho encontrava, nos arranjos que saíam em grande medida da guitarra do Renato, seu porto definitivo, ou seguro, pelo menos naquele momento. De lá até hoje foram muitos shows e dois discos, o Não para magoar e o Retoque , sem falar nas parcerias e num disco conjunto ainda em estado de maturação.

 

De toda essa vivência, não isenta de momentos de tensão crítica intensa, posso emitir impressões muito claras sobre o significado do Renato para a música paraense. Embora sejamos da mesma geração, considero a sonoridade do trabalho dele das mais significativas para o estabelecimento da cena Rock de Belém – hoje é desnecessário descrever a força desse movimento que há muito se tornou conhecido fora dos limites provincianos. Isso sem esquecer que ele jamais se restringiu ao rock, o que pode ser comprovado pela distância atual de sua banda (Clepsidra ) com a referida cena. Digo da mesma geração, porque cheguei a flertar com uma certa tradição da música paraense na adolescência, quando ouvi dezenas de vezes arrebatado o disco Interior , parceria do Nilson Chaves com o Vital Lima. Depois Walter Freitas, Edir Gaya, entre outros, se impuseram ao meu gosto. Sei que Renato ouviu isso tudo também, mas sempre me pareceu que ele passou incólume pela tentação descritiva daquela tradição que ficara mais famosa, seja porque sua verve pop sempre falou mais alto, seja porque suas referências do universo da canção iam de Vitor Ramil a Bob Dylan, o que, somado ao talento múltiplo dele (como instrumentista, cantor e compositor) permitia que as fronteiras de influência que ele recebia fossem ilimitadas.

 

Como resultado, a guitarra do Renato é hoje o centro de uma série de shows e discos onde uma criatividade musical que não tem paralelo entre os arranjadores de Belém vem se desenvolvendo de modo ininterrupto – isso onde uma certa cafonice, aliada curiosamente a uma virtuosidade de conservatório, uniformiza o que se ouve entre as cantoras que não se servem dele como arranjador. Seus arranjos impuseram um padrão entre cantoras das novas gerações, ainda que ele nem sempre consiga se impor completamente sobre alguma cafonice reincidente.

 

Esse é o traço mais aparente e, para alguns, mais marcante do seu trabalho: seus arranjos. Mas, subliminarmente, Renato desenvolve uma intrincada obra como compositor, uma faceta de difícil conceituação. Digo subliminarmente porque ele próprio é refratário à grande parte dessa produção, ao sempre escapar da exposição solo, individual, pessoal que permitiria expor parte dessa gama de canções.

 

Já vi um produtor reclamar do “excesso de guitarras” numa faixa arranjada pelo Renato; o mesmo se pode dizer, em outro tom, do “excesso” que emana de suas composições. Não é fácil construir uma identidade musical, aquela virtude que permite ouvir um fragmento de canção e arriscar descobrir seu autor. Fazemos isso com João Bosco, com Djavan, com Gil, com Marcelo Camelo quase sem medo de errar. Quando penso em tudo que ouvi entre as centenas de composições do Renato (ele é um compositor prolífico), me vejo diante de uma sensação distinta da que tenho quando ouço os compositores citados acima. Renato forjou uma identidade musical em meio a uma impossibilidade de situar seu trabalho dentro de qualquer registro conhecido. A teia de influências forjou uma sonoridade igualmente única, ainda que se possa gostar ou não de suas dinâmicas melódicas e harmônicas. É um caso raro em que várias forças atuam quase que em desarmonia, dada a pletora de ideias e ramificações que seu trabalho evoca.

 

Não preciso dizer que é justamente essa característica que distancia esse artista de quase tudo que o cerca. Eu mesmo, ao ouvir alguma letra esporádica minha musicada por ele fui tomado por uma sensação de estranhamento, que só se dissipava depois de muitas audições. Ainda assim, nunca me senti apto a cantar uma melodia sua, a não ser ao lado dele, em momentos de intimidade e troca de canções. Conto um segredo de alcova: algumas vezes, antes de me mostrar uma nova parceria, ele me prevenia dizendo que musicara o texto pensando em minha forma de compor e cantar; era fatal, uma melodia para regiões mais graves, uma melodia mais aberta, mais simples, mais terral. Era o máximo da doação, era menos ele que eu mesmo, numa concessão muito generosa.

 

O título desse texto joga exatamente com essa distância/proximidade entre o compositor e o arranjador; o primeiro se nutre de si mesmo, o segundo é a doação e o dom de incorporar desejos daqueles que cantam, compõem, escrevem mas são incapazes de ordenar isso de modo plenamente musical, tomando a palavra em seu sentido mais amplo. Maldito porque da mesma forma que um Jards Macalé, Renato Torres provoca o ouvinte a revirar incômodo em sua poltrona acolchoada do teatro e sair de sua mediocridade passiva diante da música; quer dele a obrigação do enfrentamento da canção torta, nem sempre belamente agradável aos ouvidos saturados, quer levar ao limite o experimento da criação dividindo-o. E querido porque todos o adoram e necessitam dele e de sua criatividade, que transforma canções repetitivas e algo conservadoras em pedras de toque; ele que acaba por quebrar o que de outro modo jamais escaparia da sonoridade reincidente que se ouve na chamada MPP.

 

Eu sempre cobrei dele um voo solo, e o fazia de modo insistente. Acho que essa provocação que exerço agora de forma silenciosa, e que muitos outros lançam sobre ele, é uma espécie de exigência, um pedido enviesado para que Renato tome as rédeas de sua radicalidade e a exponha nuamente, mesmo que seja para provar que ele não cabe nem no rock, nem no pop, nem na canção tradicional. Parece que esse longo clamor dos que o cercam o provocou a ponto de parecer em ebulição o que agora se insinua como inescapável.

 

Henry Burnett*

Março, 2011

 

*compositor de Belém-Pa, atualmente reside entre Rio e São Paulo, onde é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo

 

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Comentários

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  • Lígia Saavedra

    Lígia Saavedra

    22/02/11

    Renato querido, mago das palavras que encantam e musico de prima. Parabéns pelo seu talento! Bjs
  • Juliana Sinimbú

    Juliana Sinimbú

    17/02/11

    Renato é um dos maiores artistas que já conheci. O destino de tão bom comigo, fez dele meu amigo querido e meu companheiro profissional. Coisas que só essa vida, esta de agora, não explica... Tá linda a sua página, Tempo Invertido, Ar, e outras canções que a gente ama! Te amo meu amigo! JulianaSinimbú